A perda de um cão ou de um gato, seja de forma inesperada ou previsível por velhice, tem um forte impacto na vida de seus tutores e de suas famílias. Nesta semana, o luto pela morte de um pet foi assunto nos jornais e nas redes sociais. O especialista em comportamento animal, Alexandre Rossi, conhecido como Dr Pet, anunciou na quarta-feira, dia 20, a morte de sua cachorrinha Estopinha, aos 14 de idade, companheira em suas atividades profissionais e nas mídias sociais.
Ao contrário do que se possa imaginar, menos para os que têm cães e gatos, e sabem do intenso relacionamento afetivo, o luto pelo falecimento de um animal de estimação é coisa séria. Esse processo é vivenciado, muitas vezes, se não na maioria das vezes, de maneira semelhante à dor e à perda de um familiar humano.
A psiquiatria enumera 5 fases do luto nos seres humanos: a primeira é a negação; seguida pela raiva (uma fase preocupante, que envolve a culpa); depois vem o ressentimento pela perda e a esperança de que essa seja revertida; o quarto estágio é de solidão e saudade intensa, e o quinto o da aceitação da morte do ente querido. A superação não significa ausência de dor, mas de sentimentos mais positivos em relação à perda, com destaque para as boas lembranças.
Um dos problemas diante da morte de um pet está na culpa que tutores manifestam nesta hora. Afinal, hoje, eles se apresentam como 'papai' e 'mamãe' dos animais, responsáveis, portanto, pela alimentação, bem-estar e saúde dos bichinhos. No caso de mortes por acidente ou doenças infeccionas, o nível de sofrimento é terrível, como pode ser visto nos hospitais e clínicas veterinárias.
No caso de óbito de cães e gatos idosos, a situação não é muito melhor. Isso porque os números das idades enganam: um cão com 14 anos ou 15 anos é um geriatra, possivelmente com insuficiência cardíaca ou renal, mas essa idade, na contagem humana, significa apenas a adolescência. Um cão de grande porte, como o Golden Retriever, nesta idade, está com quase 100 anos na cronologia humana!
Outro problema no luto pelos animais é o reconhecimento ainda precário da sociedade dessa realidade e a dificuldade dos tutores de expressarem seus sentimentos em público.
A dor pela perda de um animal de estimação ainda não é tão bem aceita socialmente, tanto que não se pode ser liberado do trabalho pela morte de um cão ou de um gato e nem citar isso como desculpa para não ir ao futebol de domingo.
A psicóloga Márcia Nubia Fonseca Vieira é autora de artigo científico sobre o assunto. "Quando morre o animal de estimação: um estudo sobre o luto", publicado em Psicologia em Revista, em 2019.
Vieira entrevistou para seu artigo tutores de cães que estavam em luto. Trata-se de rara pesquisa que busca entender no Brasil o luto por animais de estimação. Os tutores disseram estar vivenciando dor semelhante a da perda de um integrante humano da família, mas que não se sentiam acolhidos pelo seu círculo social e nem autorizados a expressar seus sentimentos em público.
Transcrevo abaixo suas:
Para a maior parte dos entrevistados, a expressão de seus sentimentos foi a tarefa mais árdua, devido ao fato de que não obtiveram reconhecimento da perda de seus cães como perdas significativas. Assim, não puderam chorar e lamentar publicamente e, como consequência, não obtiveram apoio, conforto e solidariedade, tão fundamentais nesse momento. Dessa maneira, vivenciaram o luto não autorizado (Worden, 2013; Casellato, 2013).
Por todo o exposto, foi-nos possível concluir que os entrevistados, por estabelecerem um forte vínculo de apego com seus cães, vivenciaram um processo de luto semelhante ao vivenciado pela perda de um ser humano.
A constatação dessa realidade nos alerta para a importância de se validar a dor das pessoas que perdem um animal de estimação, a fim de que lhes possa ser concedido o suporte social necessário a seu luto, uma vez que a ausência desse reconhecimento pode levá-las à inibição de seu pesar, repressão de seus sentimentos e minimização de suas perdas, gerando-se intenso sofrimento psíquico e consequente impacto negativo em sua saúde mental.
Fonte do artigo de Marcia Núbia Fonseca Vieira :